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Lula e Bolsonaro e o Relógio das 8h17

 Na última noite de um inverno sem estrelas, quando a névoa rastejava pelas ruas de Brasília como um animal antigo e faminto, dois homens foram convidados para a mesma casa.


A mansão erguia-se esquecida às margens do lago, com janelas altas semelhantes a olhos febris. Nenhum dos dois soube explicar por que aceitara o convite. A carta chegara sem remetente, escrita com tinta escura e uma caligrafia trêmula:

“A verdade aguarda no corredor.”

Lula e Bolsonaro e o Relógio das 8h17
Confronto na galeria sombria

Lula chegou primeiro. Caminhava lentamente, envolto num pesado casaco escuro, observando as paredes da casa como quem reconhece um velho inimigo. Minutos depois veio Bolsonaro, de passos rígidos e olhar desconfiado, trazendo no rosto a expressão de alguém que preferiria enfrentar uma tempestade a permanecer naquele lugar.


Nenhum criado apareceu.

Nenhuma luz além da chama vacilante de um único candelabro.

A porta principal fechou-se sozinha atrás deles.

O som ecoou pela mansão inteira como o bater de um caixão.


— Isso é armação — murmurou Bolsonaro.

— Talvez seja memória — respondeu Lula, fitando o corredor à frente.

O corredor parecia impossível. Longo demais. As paredes eram cobertas por retratos antigos cujos olhos acompanhavam os visitantes. À medida que avançavam, ouviam murmúrios indistintos, como vozes vindas do interior das próprias paredes.


Primeiro pensaram ser o vento.

Depois perceberam que as vozes diziam seus nomes.

“Lula…”

“Bolsonaro…”

Sussurravam com tristeza. Com raiva. Com devoção.

Milhares de vozes.

A mansão parecia alimentada por elas.

Chegaram então a uma sala circular onde havia apenas uma cadeira de madeira diante de um espelho gigantesco coberto por um pano negro. Sobre a cadeira repousava um relógio parado às 8h17.

Nenhum deles ousou tocá-lo.

Foi então que a voz surgiu.

Não vinha do teto nem do chão.

Vinha de dentro do espelho.

Lula e Bolsonaro e o Relógio das 8h17
Reflexões e sombras de um passado turbulento

— Todo homem perseguido pela multidão termina prisioneiro dela.

O pano caiu sozinho.

No reflexo, porém, não estavam eles.

Lula viu-se velho além da idade, caminhando sozinho por corredores vazios enquanto multidões invisíveis gritavam seu nome como uma oração esquecida.

Bolsonaro viu-se cercado por sombras sem rosto erguendo celulares como velas funerárias, iluminando-o até que sua própria figura desaparecesse sob a luz.

Ambos recuaram.

O espelho começou a pulsar.

As vozes aumentaram.

Não eram apoiadores.

Não eram inimigos.

Eram ecos.

Ecos de discursos repetidos tantas vezes que já não pertenciam mais aos homens que os haviam pronunciado.

— O que é isso? — perguntou Bolsonaro, agora sem firmeza.

Lula respondeu em voz baixa:

— Acho que é o que sobra da gente quando o povo transforma homem em símbolo.

A temperatura caiu brutalmente.

O relógio sobre a cadeira voltou a funcionar.

TIC.

TAC.

TIC.

Então perceberam algo aterrador.

Os retratos nas paredes haviam mudado.

Agora mostravam apenas corredores vazios.

Sem pessoas.

Sem líderes.

Sem ninguém.

Lula e Bolsonaro e o Relógio das 8h17
Retrato político em tom sombrio
A casa inteira começou a gemer como madeira enterrada viva. O corredor atrás deles tornou-se mais longo, interminável, mergulhado numa escuridão líquida.

As vozes agora riam.

Uma risada coletiva, cansada, quase humana.

Bolsonaro tentou abrir a porta da sala. Não conseguiu.

Lula tentou cobrir o espelho novamente. O tecido caiu de suas mãos.

E no reflexo surgiu uma terceira figura.

Alta.

Magra.

Vestida de preto.

O rosto oculto pela sombra.

Ela apontou lentamente para o relógio.

Os dois olharam.

Os ponteiros giravam cada vez mais rápido.

Anos.

Décadas.

Mandatos.

Debates.

Escândalos.

Aplausos.

Vaias.

Tudo correndo até virar ruído.

Até virar pó.

Então a figura falou pela primeira vez:

— O poder é apenas um quarto escuro onde homens escutam o próprio nome até enlouquecer.

As luzes se apagaram.

Quando a polícia encontrou a mansão, ao amanhecer, ela estava vazia havia décadas.

Nenhum sinal dos dois homens.

Apenas um velho relógio parado às 8h17.

E um espelho coberto por um pano negro que ninguém ousou remover.

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