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Na última noite de um inverno sem estrelas, quando a névoa rastejava pelas ruas de Brasília como um animal antigo e faminto, dois homens foram convidados para a mesma casa.
“A verdade aguarda no corredor.”
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| Confronto na galeria sombria |
Lula chegou primeiro. Caminhava lentamente, envolto num pesado casaco escuro, observando as paredes da casa como quem reconhece um velho inimigo. Minutos depois veio Bolsonaro, de passos rígidos e olhar desconfiado, trazendo no rosto a expressão de alguém que preferiria enfrentar uma tempestade a permanecer naquele lugar.
Nenhuma luz além da chama vacilante de um único candelabro.
A porta principal fechou-se sozinha atrás deles.
O som ecoou pela mansão inteira como o bater de um caixão.
— Isso é armação — murmurou Bolsonaro.
— Talvez seja memória — respondeu Lula, fitando o corredor à frente.
O corredor parecia impossível. Longo demais. As paredes eram cobertas por retratos antigos cujos olhos acompanhavam os visitantes. À medida que avançavam, ouviam murmúrios indistintos, como vozes vindas do interior das próprias paredes.
Primeiro pensaram ser o vento.
Depois perceberam que as vozes diziam seus nomes.
“Lula…”
“Bolsonaro…”
Sussurravam com tristeza. Com raiva. Com devoção.
Milhares de vozes.
A mansão parecia alimentada por elas.
Chegaram então a uma sala circular onde havia apenas uma cadeira de madeira diante de um espelho gigantesco coberto por um pano negro. Sobre a cadeira repousava um relógio parado às 8h17.
Nenhum deles ousou tocá-lo.
Foi então que a voz surgiu.
Não vinha do teto nem do chão.
Vinha de dentro do espelho.
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| Reflexões e sombras de um passado turbulento |
— Todo homem perseguido pela multidão termina prisioneiro dela.
O pano caiu sozinho.
No reflexo, porém, não estavam eles.
Lula viu-se velho além da idade, caminhando sozinho por corredores vazios enquanto multidões invisíveis gritavam seu nome como uma oração esquecida.
Bolsonaro viu-se cercado por sombras sem rosto erguendo celulares como velas funerárias, iluminando-o até que sua própria figura desaparecesse sob a luz.
Ambos recuaram.
O espelho começou a pulsar.
As vozes aumentaram.
Não eram apoiadores.
Não eram inimigos.
Eram ecos.
Ecos de discursos repetidos tantas vezes que já não pertenciam mais aos homens que os haviam pronunciado.
— O que é isso? — perguntou Bolsonaro, agora sem firmeza.
Lula respondeu em voz baixa:
— Acho que é o que sobra da gente quando o povo transforma homem em símbolo.
A temperatura caiu brutalmente.
O relógio sobre a cadeira voltou a funcionar.
TIC.
TAC.
TIC.
Então perceberam algo aterrador.
Os retratos nas paredes haviam mudado.
Agora mostravam apenas corredores vazios.
Sem pessoas.
Sem líderes.
Sem ninguém.
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| Retrato político em tom sombrio |
As vozes agora riam.
Uma risada coletiva, cansada, quase humana.
Bolsonaro tentou abrir a porta da sala. Não conseguiu.
Lula tentou cobrir o espelho novamente. O tecido caiu de suas mãos.
E no reflexo surgiu uma terceira figura.
Alta.
Magra.
Vestida de preto.
O rosto oculto pela sombra.
Ela apontou lentamente para o relógio.
Os dois olharam.
Os ponteiros giravam cada vez mais rápido.
Anos.
Décadas.
Mandatos.
Debates.
Escândalos.
Aplausos.
Vaias.
Tudo correndo até virar ruído.
Até virar pó.
Então a figura falou pela primeira vez:
— O poder é apenas um quarto escuro onde homens escutam o próprio nome até enlouquecer.
As luzes se apagaram.
Quando a polícia encontrou a mansão, ao amanhecer, ela estava vazia havia décadas.
Nenhum sinal dos dois homens.
Apenas um velho relógio parado às 8h17.
E um espelho coberto por um pano negro que ninguém ousou remover.
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